Os Processos de Percepção e Comunicação Interpessoal

Ou como estamos verdadeiramente com os outros

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A PERCEPÇÃO INTERPESSOAL

Não somos máquinas fotográficas, nem gravadores. Não absorvemos com os nossos olhos exactamente aquilo que está "ali". Respondemos constantemente a pistas que têm significado para nós; vemos aquilo que queremos ou necessitamos ver para nos defendermos ou prosseguirmos com os nossos objectivos.

Da mesma forma, não vemos as pessoas como elas são, vê-mo-las pelo que elas significam para nós. Se considerarmos o modo como compreendemos o mundo em que vivemos e, particularmente, os aspectos que têm a ver connosco e com as nossas relações com outras pessoas, podemos constatar que:

  • Organizamos o mundo de acordo com conceitos ou categorias (por exemplo, dizemos que uma coisa é fria ou quente, boa ou má, simples ou complexa,etc.). Cada um destes conceitos pode ser considerado uma dimensão ao logo da qual nós podemos colocar os acontecimentos do mundo, alguns mais próximos de um dos extremos, outros do outro.

De facto, sempre que consideramos as nossas próprias qualidades, as outras pessoas ou os acontecimentos do mundo inanimado, temos de recorrer a estes conceitos. Estamos dependentes, para a compreensão do mundo, dos conceitos e categorias de que dispomos para organizar as nossas experiências. Se nos faltar um conceito para definir algo que ocorre no mundo, temos de inventar um ou não podemos responder ao acontecimento de um modo organizado. Como é que, por exemplo, uma pessoa explica o seu próprio comportamento e o dos outros sem os conceitos de amor e ódio? Pensem como o comportamento pareceria confuso ou se tornaria mesmo imperceptível para a pessoa que não dispusesse desta dimensão.

Cada um de nós desenvolveu o seu próprio conjunto de conceitos que utiliza para interpretar o comportamento dos outros. Estas preferências de conceitos estão, na maior parte das vezes relacionadas com a nossa motivação.

Os conceitos não existem isoladamente; estão interligados através de uma rede de relações. Os que utilizamos para compreender uma situação e as relações entre os próprios conceitos, constituem o sistema conceptual.

As imagens e os estereótipos actuam deste modo. Quando descobrimos que uma pessoa é um "negro" ou um "líder sindical" ou um "sociólogo" ou uma "mulher", a informação sobre estes conceitos imediatamente evoca um conjunto de expectativas sobre outras características da pessoa. No caso dos estereótipos estas expectativas podem mesmo ser tão fortes que não procuramos constatar se o sistema conceptual "trabalhou" correctamente desta vez e podemos mesmo ir ao extremo de ignorar ou distorcer informações que não se adequam ao nosso sistema conceptual, de modo que o sistema não seja afectado por experiências contraditórias.

Por outras palavras, estes conceitos (ou conjuntos de dimensões) permitem-nos organizar as múltiplas experiências que temos diariamente. Sem eles, estaríamos num estado de caos contínuo e por isso mesmo eles são partes funcionais e necessárias da personalidade humana. O facto de sermos tão dependentes do nosso sistema conceptual significa que hesitamos muito em aceitar qualquer informação que não se lhe adapte.

Para nos protegermos destas experiências desconfirmantes, temos à nossa disposição inúmeras defesas perceptuais. Estas defesas actuam como um filtro, bloqueando o que não queremos ver e deixando passar o que queremos ver. Quanto mais nos aproximamos de sistemas conceptuais que têm a ver com as nossas relações com outras pessoas importantes para nós, mais provavelmente nos socorremos destes filtros defensivos.

 

FACTORES EM JOGO NA PERCEPÇÃO

Podemos considerar neste campo vários tipos de factores:

  • Factores estruturais: São as primeiras condições da percepção sobre as quais não há acção, que não se podem mudar;
  • Factores funcionais: O percebido é o conjunto do que, vindo do mundo exterior, tem para nós uma significação. Operamos pois sobre os elementos que estão à nossa disposição e cuja organização nos permite a sua integração de forma compreensível.

Vejamos um exemplo:

Introduzimos uma pessoa numa sala e, ao fim de alguns instantes, mandamo-la saír e pedimos-lhe para descrever a sala onde esteve. Podemos constatar que ela não descreve tudo o que lá estava. Entre os elementos que ela podia ver, não conservou senão uma parte. Este simples facto mostra que a percepção opera uma selecção nas informações que atingem os sentidos: não é que a pessoa não tenha visto, mas ela valorizou umas coisas e subestimou ou esqueceu outras.

Não somente eliminamos um certo número de informações, como organizamos o campo dos dados sensoriais introduzindo neles uma estrutura que o torne coerente. É assim que a percepção isola os conjuntos, obedecendo a certas leis:

os objectos são percebidos em grupo, por causa da sua proximidade, semelhança, simetria, etc. Do mesmo modo, a percepção destaca uma figura do fundo em que está inscrita e a figura adquire maior significação e propriedades um pouco diferentes das do fundo.

Nas nossas actividades perceptivas introduzem-se também comparações e juízos que nos permitem assimilar o "dado" presente a um "conhecido" anterior. "É assim que, quando estamos numa casa que nunca vimos, percebemos uma casa, isto é, um conjunto que tem significação: o sítio onde se vive, dorme, etc...

A percepção é uma função da pessoa. As percepções sofrem influência das características pessoais, mas também do contexto social, das instituições nas quais a pessoa está integrada. Assim, segundo os indivíduos, os mesmos objectos, os mesmos acontecimentos, as mesmas pessoas do mundo exterior impõem-se com uma significação diferente.

  • Factores institucionais: O sujeito da percepção, enquanto pessoa, está inserido numa sociedade da qual veicula algumas representações. Estas representações estão institucionalizadas. É assim que numa tribo melanésia, não se procura a semelhança entre dois irmãos porque, segundo o modo como as populações concebem os laços de parentesco, não se parte do princípio que os  irmãos tenham que se parecer um com o outro.
  • Factores pessoais: Um grupo de experimentadores mostrou a alguns sujeitos, que tinham previamente jejuado, figuras bastante ambíguas. Constataram que os sujeitos que estavam cheios de fome viam alimentos e utensílios de cozinha numa proporção nitidamente maior que os sujeitos em estado normal, verificando- se que as percepções se tornavam exclusivamente alimentares à medida que o tempo de jejum aumentava. Podemos então considerar que vários parâmetros estão na base das nossas preferências pessoais. Vejamos alguns:
    1. Desejos, preferências, opiniões e estereótipos (Em função dos nossos desejos, transformamos mais ou menos o objecto da percepção de modo que ele preencha a nossa expectativa. É assim que os espectadores de um jogo de futebol vêem todas as faltas do campo adversário e não vêem as do seu clube favorito)
    2. Experiências passadas - aprendizagem (A percepção depende enormemente das experiências anteriores, por exemplo, sabe-se que certas tribos africanas e australianas são capazes de seguir rastos de homens ou animais enquanto qur nós somos incapazes. Essas tribos apenderam a dar um sentido aos pormenores que nos escapam, uma vez que não têm nenhuma significação para nós.
    3. Contexto e quadro de referência (As nossas percepções não são as mesmas conforme o contexto no qual se encontra uma figura: contexto significa aqui, quer o ambiente objectivo exterior que observamos ao mesmo tempo que a figura, quer o contexto interno, pessoal, que é o quadro de referência no qual recebemos a imagem.

Note-se que é ao nível da percepção de outrem que se colocam mais problemas de distorção perceptiva. Os riscos de erro são consideravelmente aumentados, dado que uma grande parte das razões e móbeis do comportamento de outrem nos escapa. As significações que a nossa percepção atribui aos outros não correspondem forçosamente às que eles próprios atribuem à sua conduta. A pessoa não é percebida tal nem como deseja ser, o que gera descontentamento, hostilidade. Uma das formas de ultrapassar este estado de coisas é a explicitação das motivações e dos objectivos e só o esforço para atingir uma comunicação livre e sem barreiras poderá permitir aos indivíduos ajustar a sua percepção.

 

A COMUNICAÇÃO INTERPESSOAL

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Sob um ponto de vista racional e mecânico, o processo de comunicação poderia ser representado do seguinte modo:

Pessoa A <--------------------------------------------------> Pessoa B

 

Ou seja, A diz alguma coisa e B ouve o que A disse. Contudo, raramente as comunicações são assim tão simples. As comunicações são muito mais do que palavras que correm entre as pessoas. Todo o comportamento transmite uma mensagem - é uma forma de comunicação. Quando estudamos o conceito de comunicação interpessoal, temos de examinar a relação interpessoal de um modo geral.

No exemplo representado, A traz para a interacção com B muito mais do que o conteúdo da mensagem que deseja transmitir. Ele transmite-a como pessoa. A tem uma imagem de si próprio como pessoa e tem também, embora em vários graus de especificidade e intensidade, um conjunto de atitudes e de sentimentos em relação a B. A mensagem que A dirige a B, para além de um certo conteúdo, poderá pois conter uma série de pistas:

a) sobre o modo como A se sente como pessoa (por exemplo, confiante e seguro versus não confiante e inseguro); b) sobre o modo como A sente B como pessoa (por exemplo, amável e receptivo versus frio e fechado) e c) sobre o modo como A espera que B reaja à sua mensagem.

Este quadro torna-se ainda mais complexo se pensarmos que A apenas está parcialmente consciente do que está a transmitir a B. Isto pode criar um "arco de distorção" (Warren Bennis):

A transmite algo a B que não pretendia transmitir. B reage a essa transmissão e confunde A, que poderá não compreender porque é que a sua mensagem provocou uma reacção tão estranha. Um exemplo disto é o chefe que, inconsciente do seu tom ameaçador de voz, pede que os seus subordinados emitam opinões honestas sobre as suas acções, ficando surpreendido com a falta de sinceridade dos mesmos.

A focalização, até aqui, tem sido em A - o emissor. Mas uma imagem reflexa opera em relação a B no que se refere à sua imagem e às atitudes em relação a A. Tudo o que A transmitir (intencionalmente ou não) será recebido por B através do seu conjunto de filtros perceptuais. A resposta de B a A será em parte uma função do que B ouviu mas ouvir é um processo selectivo - ouvimos o que queremos e esperamos ouvir.

No caso das comunicações interpessoais, a própria presença de uma pessoa na situação pode ter um impacto na natureza da interacção. Falar com uma rocha é um processo estático, pois que a rocha não reage; falar com outra pessoa é um processo dinâmico, pois que a outra pessoa reage e a sua reacção influencia as nossas reacções futuras.

Para melhorar a capacidade de comunicar com os outros é essencial compreender-se as lacunas de uma comunicação com os outros. O modo mais eficaz de fazer isto é os outros darem-nos feed-back sobre o que nos ouviram dizer (tanto ao nível das palavras como dos sentimentos) e sobre o modo como a nossa mensagem os afectou (o impacto que teve). Podemos então comparar as consequências "pretendidas" com as "reais" e estarmos assim numa melhor posição para alterarmos o nosso comportamento de comunicação.

O problema crucial não é o de um estilo correcto de comunicar, mas sim o da congruência - Será que eu estou a transmitir aquilo que queria transmitir? Será que as minhas palavras e acções estão de acordo com os meus sentimentos ou Será que estou a controlar inconscientemente a minha transmissão?

O feed-back é pois um modo de ajudar; é um mecanismo correctivo para o indivíduo que quer aprender a ver se o seu comportamento se coaduna com as suas intenções, ou seja, compreender melhor as lacunas na sua comunicação com os outros. Para compreenderes melhor o processo de comunicação interpessoal, terás de olhar para certos conceitos essenciais inerentes a esse processo. Deixamos-te, então, algumas ajudas no texto anexado a este e intitulado " As noções de papel, estatuto, pessoa e os estereótipos"