02-02-2026
Os resultados do projeto HUMAI – High Users Management with Artificial Intelligence revelam que o uso da Inteligência Artificial através de machine learning, aliada a equipas multidisciplinares, pode ajudar a reduzir a sobreutilização dos serviços de urgência, com benefícios na prestação de cuidados de saúde e impacto nos custos do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
O projeto foi desenvolvido pela Unidade Local de Saúde Almada-Seixal (ULSAS), pela Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa | NOVA FCT, e pelo Value for Health CoLAB (VOH.CoLAB), que lidera este consórcio. Baseia-se no trabalho do Grupo de Resolução de High Users (GRHU), uma equipa da ULSAS, que integra profissionais hospitalares e dos cuidados de saúde primários, para dar respostas coordenadas e adaptadas às necessidades dos doentes.
No âmbito do HUMAI, foi criada uma plataforma que permite às equipas clínicas acompanhar, de forma contínua, a evolução dos doentes, integrando dados clínicos, demográficos e de utilização dos serviços de saúde. Isto ajuda a identificar padrões de recurso às urgências, monitorizar o impacto das intervenções e apoiar decisões clínicas com base em dados concretos.
Um dos avanços mais importantes foi a utilização de modelos de Machine Learning e Deep Learning para prever os utentes que têm maior risco de voltar às urgências. Estes modelos permitem apoiar a decisão sobre os casos a acompanhar e definir estratégias personalizadas para cada utente.
“Este projeto demonstra como a combinação de competências em inteligência artificial e intervenção clínica pode transformar a forma como cuidamos dos doentes que mais recorrem às urgências. Acreditamos que a abordagem colaborativa, além de capacitar os profissionais de saúde para a incorporação de IA, permitiu criar conjuntamente ferramentas digitais que apoiam decisões mais informadas, cuidados mais personalizados e uma gestão mais eficiente dos recursos do SNS”, refere Ana Rita Londral, diretora do VOH.CoLAB e professora da NOVA FCT.
“Com o apoio da Inteligência Artificial e desta plataforma desenvolvida no âmbito do HUMAI, o GRHU conseguirá atuar de forma preventiva, personalizando ainda mais os cuidados prestados aos nossos utentes e otimizando a resposta do Serviço de Urgência Geral do Hospital Garcia de Orta, tornando o sistema mais eficiente e sustentável”, afirma Pedro Correia Azevedo, presidente do Conselho de Administração da ULSAS, congratulando a sinergia com a academia.
Os resultados exploratórios mostram que existem perfis de doentes com uma redução significativa das visitas às urgências após a intervenção do GRHU, bem como perfis que precisam de acompanhamento mais prolongado ou ajustado. A análise económica revela, ainda, um benefício financeiro positivo da intervenção, principalmente no grupo de utilizadores frequentes.
O projeto HUMAI partiu de dados clínicos e sociodemográficos do Serviço de Urgência Geral do Hospital Garcia de Orta, da ULSAS, abrangendo 8.250 utentes, previamente classificados como utilizadores frequentes ou muito frequentes, entre abril de 2022 e maio de 2025.
A primeira linha de trabalho centrou-se em antecipar o impacto esperado da intervenção do GRHU em cada utente, apoiando a tomada de decisão clínica e contribuindo para uma alocação mais eficiente dos recursos.
O projeto HUMAI contou com uma avaliação feita com clínicos, gestores e decisores, alinhando indicadores clínicos, operacionais, de experiência do doente e de custos. Esta abordagem ajudou a reforçar o compromisso das diferentes partes envolvidas e a garantir a sustentabilidade da intervenção a médio e longo prazo.
Além disso, o projeto destaca-se pela abordagem participativa: o desenvolvimento da plataforma, dos indicadores e dos modelos de Inteligência Artificial foi feito em co-criação com investigadores, profissionais de saúde e gestores, garantindo soluções que respondem a necessidades reais e se integram nos fluxos de trabalho existentes. A parceria entre a ULSAS, o laboratório colaborativo e a NOVA FCT revela como a Inteligência Artificial pode apoiar decisões clínicas, personalizar cuidados e tornar o sistema de saúde mais eficiente, sustentável e centrado nas pessoas.
O HUMAI é financiado no âmbito do programa da União Europeia – NextGenerationEU, através do investimento RE-C05-i08 – “Ciência Mais Digital” do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), no âmbito da Call “Artificial Intelligence, Data Science and Cybersecurity of relevance to Public Administration”, promovida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (referência 2024.07543.IACDC/2024).
Na imprensa
IA no SNS: projeto HUMAI na ULS Almada-Seixal ajuda a travar “idas repetidas” às urgências, Diário do Distrito