Notícias

Notícias

Programa RESTART apoia investigação para descobrir como a saúde do coração começa antes do nascimento

07-07-2026

Será que uma doença cardiovascular pode começar muito antes dos primeiros sintomas ou até antes do nascimento? É esta a questão que motiva a investigação de Susana P. Pereira, investigadora do UCIBIO – NOVA FCT, recentemente distinguida com financiamento do competitivo Programa RESTART da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), para desenvolver o projeto MetaHEART – Decoding Maternal Metabolism's Impact on the Offspring Heart.

As doenças cardiovasculares continuam a ser a principal causa de morte em todo o mundo, sendo responsáveis por cerca de 20 milhões de mortes por ano. Apesar dos enormes avanços na medicina, a prevenção continua a centrar-se sobretudo nos fatores de risco do adulto, como hipertensão, obesidade, diabetes ou sedentarismo. No entanto, um número crescente de estudos sugere que parte dessa vulnerabilidade poderá ser determinada muito mais cedo, durante a vida fetal.

É precisamente esse paradigma que o projeto MetaHEART pretende explorar. A investigação parte da hipótese de que alterações no metabolismo materno durante a gravidez como obesidade, diabetes gestacional ou nutrição inadequada podem deixar uma "assinatura biológica" no coração do bebé, modificando o metabolismo cardíaco, a função das mitocôndrias cardíacas e mecanismos associados ao envelhecimento cardiovascular, aumentando a predisposição para doença décadas mais tarde.

Para responder a esta questão, a equipa utilizará um modelo único de primata não humano, cuja gravidez e desenvolvimento cardiovascular apresentam grande semelhança com a espécie humana. Estudos anteriores da equipa já demonstraram que alterações na nutrição materna provocam modificações precoces na bioenergética mitocondrial do coração fetal, com diferenças entre sexos que persistem ao longo da vida (doi: 10.1042/CS20201339) e que alterações metabólicas são um dos primeiros sinais de envelhecimento cardíaco (doi:10.1002/advs.202309211)

O projeto combinará biologia molecular, fisiologia cardiovascular, bioenergética mitocondrial e abordagens multi-ómicas para identificar os primeiros biomarcadores de vulnerabilidade cardiovascular, que poderão posteriormente ser validados em amostras humanas de sangue do cordão umbilical, aproximando a investigação fundamental da prática clínica.

"Durante décadas tentámos prevenir as doenças cardiovasculares quando os fatores de risco já estavam instalados. O nosso objetivo é perceber se parte dessa história começa antes do nascimento e, sobretudo, se conseguimos identificar essa vulnerabilidade muito antes de surgir a doença. Se compreendermos como o coração é “programado” no início da vida, poderemos abrir caminho para estratégias de prevenção verdadeiramente precoces, " explica Susana Pereira

O Programa RESTART foi criado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia para apoiar investigadores que regressam à atividade científica após um período de licença parental, reconhecendo que a parentalidade pode ter um impacto significativo na produção científica, na liderança de equipas, na captação de financiamento e na progressão da carreira.

Para Susana Pereira, mãe de três filhas, este apoio representa também um marco pessoal: "Receber este financiamento tem um significado muito especial. Permite-me consolidar uma linha de investigação independente no UCIBIO numa fase particularmente desafiante da vida, conciliando o regresso à ciência com a maternidade. É um enorme incentivo para continuar uma missão científica que me acompanha há mais de uma década: compreender como os primeiros momentos da vida moldam a saúde cardiovascular das gerações futuras."

"Espero que este programa incentive mais investigadores a não sentirem que têm de escolher entre construir uma família e construir uma carreira científica. A parentalidade muda-nos profundamente, mas não diminui a nossa capacidade de fazer ciência de excelência. Pelo contrário, muitas vezes reforça a nossa resiliência, criatividade e capacidade de liderança. Programas como o RESTART mostram que é possível reconhecer essa realidade e criar condições para que o talento científico continue a florescer”, acrescenta a cientista.

Esta é a segunda bolsa deste programa atribuída à comunidade da NOVA FCT, reforçando o reconhecimento da qualidade e impacto da investigação desenvolvida na instituição.