
A AMONET – Associação Portuguesa de Mulheres Cientistas é uma organização sem fins lucrativos que promove a igualdade de género na ciência. Fundada com o objetivo de criar um fórum estruturado para reforçar e coordenar a intervenção das mulheres cientistas na sociedade, tem vindo a afirmar-se como uma voz ativa na defesa de uma ciência mais inclusiva e equitativa.
Impulsionada por investigadoras da NOVA FCT, a associação conta com o envolvimento direto de várias académicas da instituição, entre elas Luísa Neves, Professora do Departamento de Química e membro da direção da AMONET, que nesta entrevista partilha os principais desafios enfrentados pelas mulheres na ciência, bem como as estratégias que a associação tem vindo a desenvolver para os superar.
A AMONET tem sido uma voz ativa na promoção da igualdade de género na ciência. Quais considera serem hoje os principais desafios enfrentados pelas mulheres nas áreas STEM em Portugal?
Apesar dos avanços registados, as mulheres nas áreas STEM em Portugal continuam a enfrentar desafios significativos, sobretudo no acesso a cargos de liderança. Embora o nosso país apresente uma das maiores percentagens de mulheres cientistas e engenheiras da União Europeia — e, desde 2015, tenha uma proporção de diplomadas em STEM superior à média europeia — essa presença ainda não se reflete nas posições de topo. Por exemplo, atualmente, apenas uma parte reduzida dos cargos de presidentes e reitores é ocupada por mulheres.
A NOVA FCT esteve entre as instituições envolvidas na criação da AMONET. Que impacto teve (ou tem) esta ligação para o desenvolvimento da missão da associação? E que papel pode continuar a ter uma escola como a NOVA FCT neste caminho?
Tenho de destacar o apoio fundamental que a NOVA FCT prestou na organização do último encontro da AMONET, realizado em dezembro de 2024 no nosso Campus. Esse envolvimento foi essencial para reforçar e divulgar a missão da associação junto da comunidade académica. Acredito que o futuro passa por restabelecer uma relação mais próxima entre a AMONET e a NOVA FCT, explorando formas de colaboração que fortaleçam ambas as instituições. Sei que a escola tem desenvolvido programas com escolas básicas e secundárias, o que se cruza com uma das áreas de ação da AMONET: a promoção da igualdade de género nas STEM através de atividades de sensibilização em contexto escolar. Há, por isso, um grande potencial para criarmos sinergias e desenvolvermos projetos conjuntos que ampliem o impacto da nossa missão.
Que ações ou programas destacaria como mais eficazes na promoção de trajetórias mais equitativas para investigadoras e profissionais na ciência?
Destacaria como mais eficazes as ações que vão além da simples paridade numérica num júri ou numa comissão, promovendo, sim, mudanças estruturais nas instituições. São fundamentais medidas como o apoio à parentalidade, a flexibilidade nos horários de trabalho e à implementação de planos de carreira individualizados, focados no desenvolvimento das competências de cada pessoa e no apoio à concretização dos seus objetivos profissionais.
O contacto com modelos de referência femininos tem sido apontado como fundamental para motivar as novas gerações. Que iniciativas têm vindo a desenvolver neste sentido?
O contacto com modelos de referência femininos é, sem dúvida, essencial para inspirar e motivar as novas gerações, e tem sido uma das prioridades da AMONET. No âmbito do projeto Cientistas@Pt – Carreiras Científicas no Feminino, financiado pela Comissão para a Cidadania e a Igualdade de Género (CIG), organizámos várias visitas a escolas secundárias em todo o país. Nestes encontros, investigadoras de diversas áreas científicas partilharam os seus percursos, mostrando a diversidade e o potencial das carreiras em ciência, bem como os desafios e oportunidades relacionados com a sua progressão, sempre com foco na promoção da igualdade de género.
Complementarmente, em 2023 e 2024, a AMONET lançou o Ciclo de Webinars “Ciência, Inclusão e Igualdade”, com o objetivo de promover a reflexão e o diálogo sobre o papel da ciência numa sociedade mais equitativa e diversa, iniciámos a série de podcasts “A Ciência Inspira-me!”, onde cientistas — homens e mulheres — partilham a forma como a ciência influencia positivamente a vida quotidiana, a sustentabilidade, a política e o desenvolvimento da cidadania, contribuindo assim para tornar os/as cientistas mais visíveis e acessíveis.
Mais recentemente, começámos uma colaboração com uma organização não governamental na Ilha do Sal, em Cabo Verde, com o objetivo de empoderar meninas, valorizar a família e promover o turismo responsável e sustentável. No âmbito desta parceria, lançámos uma Call to Action nacional, convidando as sócias da AMONET que visitem Cabo Verde a participarem em sessões científicas com meninas e jovens locais. A mesma proposta foi estendida à European Platform of Women Scientists (EPWS), desafiando cientistas europeias a partilhar as suas experiências com as jovens cabo-verdianas, reforçando o papel transformador da ciência e das suas protagonistas femininas.
O que falta fazer, a nível institucional e político, para garantir uma mudança estrutural e duradoura no acesso e progressão das mulheres na ciência e tecnologia?
É essencial, a nível institucional e político, investir em várias frentes complementares. Desde logo, é crucial combater os estereótipos de género que continuam a associar mulheres a papéis tradicionais, limitando a participação feminina nas áreas STEM. Esta transformação deve começar cedo, com ações de sensibilização e promoção dirigidas tanto na infância como mais tarde, de forma a despertar o interesse das raparigas por estas áreas e mostrar-lhes que têm lugar e futuro nelas. Outro aspeto fundamental é a valorização de modelos de referência femininos. A criação de redes de embaixadoras e mentoras que partilhem os seus percursos pode inspirar e motivar jovens a seguirem carreiras científicas e tecnológicas. Por fim, a promoção da formação contínua e da requalificação profissional é indispensável para garantir que as mulheres tenham acesso às ferramentas necessárias para atingirem os seus objetivos profissionais.
Maio 2025