Detectar o cancro cedo continua a ser um dos maiores desafios da medicina moderna. Este estudo liderado por Filipa Marcelo revela um novo mecanismo do sistema imunitário: alterações nos açúcares das células tumorais funcionam como sinais que permitem ao corpo identificar células anormais e podem apoiar a deteção precoce do cancro.
Os resultados desta investigação, divulgados a 2 de fevereiro, em antecipação ao Dia Internacional do Cancro, revelam que muitas células tumorais apresentam modificações nos açúcares à sua superfície, conhecidos como glicanos truncados. Estes funcionam como sinais que permitem ao sistema imunitário identificar células anormais. No centro deste mecanismo está a proteína MGL, um recetor presente em células do sistema imunitário, capaz de detetar estes sinais.
A eficácia da MGL depende da sua organização: isolada, liga-se apenas a um tipo específico de açúcar; mas quando integrada na célula, consegue reconhecer múltiplos padrões de glicanos associados a tumores, atuando como um verdadeiro “detetor ampliado” de células cancerígenas.

“Descobrimos que não é apenas o tipo de açúcar que importa, mas também a forma como o recetor imunitário está organizado na célula. Esta perceção pode transformar a forma como desenhamos moléculas para modular a resposta imunitária ou direcionar medicamentos às células tumorais”, explica Filipa Marcelo.
O estudo combinou abordagens químicas, estruturais e celulares para analisar a interação entre MGL e glicanos tumorais. Os resultados abrem caminho a novas estratégias para diagnóstico precoce, terapias que reforcem a resposta imunitária e sistemas de entrega de fármacos direcionados.
A investigação envolveu equipas de Portugal (NOVA FCT e i3S), Dinamarca, Espanha, Países Baixos e Suécia, e os resultados foram publicados na revista científica JACS Au (DOI: 10.1021/jacsau.5c00905).
Sobre a investigadora:
Filipa Marcelo é investigadora na UCIBIO-NOVA FCT, especializada em glicobiologia e nas interações moleculares que regulam o reconhecimento pelo sistema imunitário. O seu trabalho foca-se nas alterações associadas ao cancro e no desenvolvimento de estratégias terapêuticas mais precisas e direcionadas. Além de liderar projetos nacionais, Filipa tem uma sólida experiência em colaborações internacionais, coordenando estudos que combinam abordagens químicas, estruturais e celulares para compreender como o corpo reconhece células tumorais. O seu trabalho tem vindo a destacar-se no panorama da investigação biomolecular, contribuindo para novas perspetivas em imunoterapia e diagnóstico precoce do cancro.
Fotografia: João Lima - NOVA FCT
Fevereiro 2026