Formado pela NOVA FCT, Tiago Letras Ribeiro concluiu em 2022 a sua dissertação no âmbito do Mestrado Integrado em Engenharia Civil, com o estudo inovador “Study of Asphalt Self-Healing with Colorless Bonded and Pigmented Oil”. Este trabalho explorou tecnologias de asfalto capazes de reparar fissuras de forma autónoma, combinando investigação experimental e inovação em materiais. Ao desenvolver soluções para melhorar a durabilidade e a qualidade dos pavimentos, o seu trabalho tem um impacto direto na mobilidade urbana, tornando as estradas mais seguras e as cidades mais eficientes. Nesta entrevista, Tiago Ribeiro dá a conhecer a sua experiência académica e a forma como aplica, no dia a dia profissional, soluções inovadoras que promovem sustentabilidade e eficiência na engenharia civil.
Como descreveria a sua experiência enquanto estudante na NOVA FCT?
A minha experiência na NOVA FCT foi muito positiva. Desde o início, quando nos encontramos num contexto completamente novo sem conhecer ninguém, a receção foi excelente. Encontrei um ambiente descontraído e de entreajuda que me permitiu, ao fim de algumas semanas, sentir-me muito mais à vontade, tanto com os colegas como com toda a dinâmica académica.
Na NOVA FCT temos acesso a professores que se destacam nos seus campos de investigação, e essa expertise é claramente transmitida durante as aulas e projetos. Para além disso, o percurso académico está estruturado de forma a desenvolvermos competências transversais e a colaborarmos com estudantes de outros cursos, o que considero muito enriquecedor para a nossa formação.
Qual foi o tema da sua dissertação de mestrado e que contributo trouxe para a área das infraestruturas de transportes?
A minha dissertação de mestrado focou-se nas infraestruturas de transportes, onde investiguei uma tecnologia que permite "construir" estradas autoderreparáveis. Embora possa soar a ficção científica, é uma área de investigação inovadora baseada em materiais e técnicas já estabelecidas.
A ideia principal consiste na produção de asfalto que contém agentes rejuvenescedores no seu interior, capazes de reparar as fissuras que eventualmente se desenvolvem. Uma das formas de incorporar estes agentes é através de microcápsulas, que produzi nos laboratórios do Departamento de Ciências dos Materiais.
O potencial desta técnica já foi demonstrado na literatura, mas encontra-se agora na fase crítica de adaptação à realidade, onde muitas destas ideias acabam por estagnar. O meu trabalho procurou caracterizar o mecanismo de funcionamento desta tecnologia em misturas reais, de uma forma inovadora. Com os vários contratempos que surgiram, um clássico da investigação, o projeto acabou por resultar numa caracterização bastante detalhada da técnica.

Fotografias: João Lima/NOVA FCT
Como a dissertação preparou a sua entrada no mercado de trabalho?
Para este projeto realizei um extenso trabalho laboratorial em parceria com o Departamento de Transportes do LNEC, o que foi extremamente valioso para a minha transição para o mercado de trabalho, permitindo-me desenvolver competências muito específicas. Por exemplo, familiarizei-me com estudos de formulação de misturas betuminosas, os tipos de misturas mais utilizadas no país e os ensaios de caracterização mais comuns.
A candidatura à Tecnovia, uma das principais empresas de pavimentação portuguesas, surgiu como uma continuação natural dos temas que tinha começado a estudar. Este percurso iniciou-se com um estágio profissional que evoluiu até à minha função atual como Engenheiro Civil nos departamentos de Laboratório e Betão Pronto.
De que forma o seu trabalho atual cruza planeamento e manutenção das vias rodoviárias com inovação em materiais?
Na Tecnovia trabalho diretamente em projetos que procuram tornar os materiais de construção mais sustentáveis e adequados às cidades e infraestruturas do futuro.
As misturas betuminosas, tal como são produzidas atualmente, são diretamente responsáveis pela emissão de gases com efeito de estufa devido ao aquecimento dos materiais durante o fabrico, e pelo consumo de recursos naturais, já que utilizam agregados de pedreiras e betume, um subproduto do petróleo. Algumas das formas mais diretas de melhorar a sustentabilidade ambiental destes materiais passam por reduzir a temperatura de fabrico, diminuindo o gasto de combustível durante o aquecimento em central, e incorporar materiais reciclados na composição da mistura.
Embora estas ideias sejam simples em conceito, não basta baixar a potência do queimador da central ou utilizar 100% de asfalto reciclado. Para manter o nível de desempenho, é necessário utilizar técnicas que permitam estas modificações, como a adição de aditivos químicos. Estes aditivos fazem com que, por exemplo, o betume tenha a mesma viscosidade a 140 °C que teria a 180 °C, permitindo a mistura a temperatura inferior. É também possível utilizá-los para reequilibrar a composição química do asfalto reciclado, que se altera com o tempo, permitindo maiores taxas de incorporação. Esta tem sido a abordagem dos projetos em que estou envolvido.
Que impacto têm estas soluções na mobilidade urbana e na sustentabilidade das cidades?
Estas misturas, designadas WMA (Warm Mix Asphalt) com RAP (Reclaimed Asphalt Pavement), têm diversas vantagens. A redução de temperatura na ordem dos 40 °C e a utilização de 30% de RAP resulta na emissão de 30% menos CO2 que uma mistura tradicional. Além disso, as emissões durante a pavimentação, fumos e vapores nocivos para a saúde, são reduzidas em quase 80%, representando uma grande melhoria para os trabalhadores e uma significativa redução do impacto das pavimentações urbanas.
Atualmente continuo a trabalhar no sentido de aumentar a percentagem de material reciclado nestes produtos e de reduzir ainda mais a temperatura de fabrico. Para além de procurar inovar continuamente, é necessário demonstrar o bom desempenho tanto em laboratório como no terreno, e divulgar essa informação.
Com o objetivo de chegar aos decisores, apresentei estes trabalhos em fóruns como o Congresso Rodoferroviário Português e a Conferência Nacional sobre Cidades Sustentáveis e Inteligentes.
Qual considera ser o papel da Engenharia Civil na construção de cidades mais eficientes e sustentáveis?
Na Engenharia Civil existe frequentemente uma tendência para o conservadorismo, por bom motivo, já que os nossos projetos duram várias décadas. Contudo, o nosso setor precisa de respostas à crise climática, e acredito que é papel dos jovens engenheiros promover essa mudança, sempre fundamentada no conhecimento e na evidência científica.
Setembro 2025