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Inteligência Artificial ao serviço da segurança: alumna da NOVA FCT vence hackathon europeu com app contra burlas

Rita Barbosa, licenciada em Engenharia Informática pela NOVA FCT e atualmente a frequentar o mestrado em Inteligência Artificial na Universidade Técnica de Hamburgo, decidiu transformar uma experiência pessoal em tecnologia capaz de proteger pessoas vulneráveis. Motivada pelo episódio em que a sua avó foi vítima de uma burla telefónica, desenvolveu a aplicação móvel “Guardião”, que detecta e bloqueia chamadas e mensagens fraudulentas. Criada em apenas dois dias como protótipo, a aplicação conquistou o primeiro lugar no maior hackathon internacional de Inteligência Artificial da Alemanha, superando 105 projetos de 48 países.

  

Como surgiu a ideia da aplicação "Guardião"?
A ideia nasceu de uma experiência muito pessoal: a minha avó foi vítima de uma burla telefónica. E o pior não foi só a perda financeira, foi o que veio depois. O medo de atender o telefone, a vergonha, a sensação de que o telemóvel se tinha tornado uma ameaça. Vi uma mulher que sempre cuidou da família ficar pequena por causa de uma chamada. Percebi que se isto acontece na minha família, acontece em todas. E pensei: e se, em vez de
pedirmos aos idosos para serem especialistas em cibersegurança, criássemos algo que desconfiasse por eles e os protegesse ativamente? Foi assim que nasceu o Guardião.

 

Pode explicar, de forma simples, como funciona o agente de inteligência artificial da aplicação e como é garantida a privacidade dos utilizadores?
O Guardião funciona como um escudo invisível. Quando uma chamada ou mensagem chega ao telemóvel, a inteligência artificial analisa-a em tempo real, verifica se o número está associado a burlas conhecidas, transcreve e analisa o conteúdo para detetar padrões de manipulação (urgência artificial, pressão emocional, referências a códigos bancários), e bloqueia a ameaça antes de o telefone sequer tocar. 

Quanto à privacidade, foi uma prioridade absoluta desde o início. Todo o processamento é feito localmente, no próprio dispositivo do utilizador. Nenhuma chamada ou mensagem é gravada ou enviada para servidores externos. A família pode ver quantas ameaças foram bloqueadas, mas nunca ouve o conteúdo das conversas. É proteção sem vigilância, em total conformidade com o RGPD.

 
Quais foram os principais desafios ao desenvolver a aplicação em apenas dois dias?
A aplicação final vai demorar muito mais do que dois dias. O que eu fiz foi um proof of concept, ou seja, mostrei que é de facto possível, mas a aplicação mais robusta só irá aparecer na PlayStore no final do mês de fevereiro. Em relação ao que de facto foi feito, o maior desafio foi fazer escolhas difíceis sobre o que incluir e o que deixar para depois.

Em menos do que 30 horas, não dá para construir tudo. É preciso focar no essencial. Optei por priorizar a experiência do utilizador idoso: a proteção tinha de ser completamente invisível, sem pop-ups, sem decisões a tomar. O idoso não precisa de fazer nada; o telefone simplesmente volta a ser seguro.

 
De que forma a sua formação na NOVA FCT contribuiu para o desenvolvimento deste projeto?
A NOVA FCT deu-me bases sólidas em engenharia informática, algoritmos e pensamento estruturado. Mas mais do que conhecimentos técnicos, ensinou-me a abordar problemas complexos de forma metódica, a decompor um problema grande em partes manejáveis, a testar hipóteses, a iterar
rapidamente. Também foi na NOVA FCT que comecei a perceber que a tecnologia só faz sentido quando resolve problemas reais de pessoas reais. Essa mentalidade de construir com propósito está no ADN do Guardião.

 
Quando estará disponível para download e quais os próximos passos previstos para a aplicação?
Neste momento estou a transformar o protótipo que venceu o hackathon num produto real, pronto para ser usado por famílias portuguesas. O objetivo é lançar uma versão piloto em Portugal já no final deste mês de fevereiro. Estou também a procurar parceiros, como operadoras, bancos, seguradoras, associações de apoio a idosos, que de facto queiram ajudar a acelerar a distribuição e garantir que a tecnologia chega a quem mais precisa.

 
Que impacto espera que a "Guardião" tenha, especialmente junto da população idosa?
Espero devolver tranquilidade. Em Portugal, temos mais de 2 milhões de pessoas acima dos 65 anos, e a maioria não tem ferramentas para se defender de burlas cada vez mais sofisticadas. Não é justo pedir-lhes que vivam em alerta permanente, a desconfiar de tudo. O Guardião propõe inverter essa responsabilidade: em vez de o idoso ter de decidir sozinho se algo é seguro, o sistema decide por ele. O impacto que procuro é simples: que o telemóvel volte a ser uma ponte para o mundo, não uma ameaça.

 
Que significado tem para si vencer um concurso internacional e quais são os seus planos futuros na área da Inteligência Artificial?
Vencer o maior hackathon internacional de IA na Alemanha, com mais de 400 participantes e 105 projetos, e apoio de empresas como a Google, OpenAI e ElevenLabs, foi uma validação importante. Não só do projeto, mas da ideia de que a tecnologia pode e deve servir causas sociais. Mas o prémio é apenas o início.

O meu plano é transformar o Guardião num produto real e acessível, começando por Portugal. A longo prazo, quero continuar a trabalhar na interseção entre inteligência artificial e bem-estar humano, seja na proteção de pessoas vulneráveis, seja na área da saúde, onde já colaboro com o Hospital Universitário de Hamburgo. O objetivo é sempre o mesmo: usar tecnologia para cuidar de pessoas.

 

Fotografia: Rita Barbosa

Fevereiro 2026