A investigadora Maria Luísa Sousa (Departamento de Ciências Sociais Aplicadas da NOVA FCT e CIUCHT) é especialista em História da Tecnologia, dos Transportes, da Mobilidade e da Cidade, apresenta o Hi-BicLab — um projeto que cruza história, ciência e participação cidadã para analisar os fatores sociais, culturais e técnicos que moldaram a mobilidade em Lisboa. A meta é clara: transformar esse conhecimento em contributo para o debate atual e apoiar a definição de políticas que tornem a cidade mais ciclável, inclusiva e sustentável.
Em que consiste exatamente o projeto Hi-BicLab - Laboratório de História para Mobilidades
Urbanas Sustentáveis: Políticas cicláveis de Lisboa?
O Hi-BicLab – Laboratório de História para Mobilidades Urbanas Sustentáveis: Políticas cicláveis de Lisboa é um projeto de investigação exploratório financiado por fundos nacionais através da Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P., «EXPL/FER-HFC/0847/2021».
Foi coordenado pelo Centro Interuniversitário de História das Ciências e da Tecnologia (CIUHCT) da NOVA FCT (DCSA) e da FCUL, e realizado em conjunto com as unidades de investigação CIAUD - Centro de Investigação em Arquitectura, Urbanismo e Design, da Faculdade de Arquitectura da Universidade de Lisboa, UECE - Unidade de Estudos sobre Complexidade e Economia, do ISEG, e GOVCOPP - Unidade de Investigação em Governação, Competitividade e Políticas Públicas, da Universidade de Aveiro.
Quais os principais objetivos deste projeto?
Os seus objetivos passam por contribuir para a agenda de investigação que propõe mobilizar a história para públicos académicos e não académicos, envolvendo-os no pensamento histórico para identificar factores-chave sociais, culturais e técnicos moldaram a mobilidade (e imobilidade) de pessoas e como podem sugerir formas de intervir no presente, para informar políticas futuras de mobilidade em Lisboa, contribuindo para mobilidades urbanas mais sustentáveis e justas. O projeto lidou especificamente com cidades com “baixa maturidade ciclável” (i.e., cidades com baixa percentagem de utilização da bicicleta e com infraestrutura ciclável pouco desenvolvida, como Lisboa).
Como se leva a cabo esta mobilização?
Centramo-nos em desenvolver investigação interdisciplinar (história da ciência e da tecnologia, geografia urbana e urbanismo, economia urbana e dos transportes, políticas públicas, envolvimento societal/ ciência cidadã); na criação de um laboratório de história com os parceiros (CML, EMEL, FPC, MUBi, Bicicultura, CICLODA, Cicloficina da Junqueira, pessoas que utilizam a bicicleta como meio de transporte e pessoas interessadas), através da organização de mesa redonda e de quatro workshops. Foi importante identificar com os parceiros o que queremos saber sobre o passado e trabalhar respostas em conjunto (workshops), tornando legível e acessível a diferentes públicos o conhecimento sobre como os sistemas de mobilidade urbana são construções históricas sociais, culturais e técnicas.

Fotografias: João Lima/NOVA FCT
Que desafios encontraram e como se articularam enquanto equipa?
Sendo um projeto cuja área central é a História da Ciência e Tecnologia, articulou na sua equipa contribuições transdisciplinares da Geografia, da Economia, das Políticas Públicas e da Ciência Cidadã. Inicialmente, organizámos um ciclo de seminários (Journal Clubs) em torno da leitura e discussão de artigos científicos de cada uma destas áreas, que estivessem relacionados com o tema do projeto Hi-BicLab, para promover o esclarecimento de conceitos e formas de diálogo através das diferentes áreas.
Depois, em tarefas diversas do projeto, nas quais trabalharam sempre pelo menos três pessoas, começámos a elaborar trabalho de pesquisa nos arquivos, de tratamento e interpretação de dados e documentação variada. Este trabalho de investigação serviu não apenas para escrever textos que vieram a ser publicados, ou partilhados noutros formatos (artigos científicos, livro, artigos de divulgação, base de dados, catálogo de exposição fotográfica, comunicações em conferência académicas nacionais e internacionais, conversas em mesas redondas e tertúlias), mas também para preparar informação e seleccionar as fontes históricas e contemporâneas usadas nos três workshops temáticos (1.Visões do passado no futuro da mobilidade de Lisboa. As políticas de planeamento urbano e de contagem de tráfego no século XX / 2.Evolução dos transportes na Lisboa do século XX e o futuro da mobilidade urbana: políticas, procura, oferta e intermodalidade / 3.Utilização, estatuto cultural e promoção da mobilidade em bicicleta em Lisboa). Nestes workshops colocámos em prática os laboratórios de história, em que pessoas ligadas aos parceiros do projeto e outras interessadas no tema trabalharam com estes documentos.
Recebemos um retorno significativo sobre a importância do conhecimento e pensamento históricos, cruzado com outras disciplinas, para iluminar o presente e dar-nos a possibilidade de, a partir daí, repensarmos colectivamente o futuro da cidade.
Há riscos em considerar o “passado utilizável” ou as “lições da história” no nosso trabalho, o que é reconhecido com humildade por quem tenta contribuir explicitamente neste sentido, nomeadamente, de descontextualizar metáforas, ou de se fazer comparações directas de situações actuais com passadas.
No entanto, também há riscos de não o fazer: empobrecer o debate da esfera pública, não traduzindo o conhecimento histórico que produzimos para públicos mais alargados (incluindo decisores políticos); reduzir os recursos, imaginário e as fontes de inspiração para se decidir sobre o presente e o futuro.
Que resultados destaca?
Para além do livro Cycling Cities: The Lisbon Experience, destaco a exposição fotográfica “A cidade para quem? Quotidianos cicláveis nas ruas lisboetas do século XX”, que em 2023 circulou por oito espaços (CIUL - Centro de Informação Urbana de Lisboa, Biblioteca de Belém, Galeria Liminare (Junta de Freguesia do Lumiar), Biblioteca da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA de Lisboa, Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa, Biblioteca dos Coruchéus, Biblioteca do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade de Lisboa, Biblioteca da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), estando actualmente no Andamento Studio (na Graça, em Lisboa) e sobre a qual se produziu um catálogo e que chegou (e continua a chegar) a vários públicos, o passeio científico realizado no âmbito da Semana de Ciência e Tecnologia de 2022 (Ciência Viva), que esgotou, com 30 participantes, e que foi fundamental para começar a construir uma rede de parceiros, e a base de dados sobre a evolução dos transportes em Lisboa (1937-2022).
Finalmente, destaco os três workshops temáticos já referidos, nos quais pudemos aplicar o conceito do laboratório de história e sobre os quais recebemos um retorno extremamente relevante por parte das pessoas que participaram.
Essencialmente, todos estes trabalhos, fazem parte de um processo maior de investigação, um processo colectivo e convivial da escrita, de diálogo com ciclistas de ontem e de hoje e outras pessoas interessadas no tema da mobilidade urbana e que traz resultados que esclarecem alguns mitos, e mostram que há história da bicicleta como meio de transporte em Lisboa apesar: 1) do foco no passado ter sido no seu uso desportivo; 2) das colinas…, vales e planaltos lisboetas; e 3) do foco no planeamento e discurso centrados no automóvel sobretudo desde meados do século XX.
Com a publicação do livro Cycling Cities: The Lisbon Experience, e integrado numa compilação mais abrangente, o vosso trabalho alcança uma maior projeção. O que significa este reconhecimento para a equipa e que linhas futuras de investigação se delineiam?
É fundamental a inscrição deste trabalho em agendas de investigação internacionais, como é aquela proposta pela historiadora da tecnologia Ruth Oldenziel, que foi consultora do projecto Hi-BicLab e que coordena a série de livros Cycling Cities, (na qual o livro que trata o caso lisboeta se integra). Temos apresentado os resultados em conferências nacionais e internacionais (iremos, daqui a um mês, em outubro, a mais uma conferência, a conferência anual da Society for the History of Technology – a associação mais importante da área, na qual estamos a organizar um painel sobre o tema), além de que estamos a preparar artigos científicos sobre a importância dos laboratórios de história e da participação pública na ciência (envolvimento societal) nas políticas de mobilidade. Não tenho feito segredo que pretendo continuar esta agenda de investigação, ampliando o conceito e os objetos de estudo, nomeadamente propondo um projecto maior de laboratórios de história que se debrucem, com parceiros académicos e não académicos, sobre outras cidades.
Setembro 2025