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O impacto do “comboio de tempestades” e o contributo da Engenharia Civil para a sua mitigação

por Fernando F. S. Pinho, Professor do Departamento de Engenharia Civil da NOVA FCT, Membro do CERIS NOVA e Especialista em Reabilitação e Património Construído pela Ordem dos Engenheiros

 

Entre 28 de janeiro e 13 de fevereiro de 2026, cerca de um terço do território continental foi atingido por uma série de tempestades atlânticas severas ("comboio de tempestades"), iniciada pela tempestade Kristin, que provocou um rasto de destruição, com impactos sociais profundos, incluindo 16 vítimas mortais, direta ou indiretamente resultantes destes eventos. Rajadas de vento, algumas atingindo 180 km/h, e chuvas fortes e persistentes, causaram ocupação dos leitos de cheia de diversos rios (ex: Sado e Mondego) e fortes inundações que submergiram vastas áreas, e causaram forte agitação marítima e erosão costeira. O colapso do dique de Casais do Mondego agravou as inundações de vastas áreas agrícolas, e obrigou ao corte da A1 (entretanto reaberta parcialmente).

 

Fernando Pinho

Entre os principais danos, que motivaram a Declaração do “Estado de calamidade” em cerca de 25% dos Concelhos do Continente (68 dos 278), destaca-se, em particular na Região Centro:

  • a destruição de milhares de telhados de habitações e industrias, e danos estruturais severos em edifícios de habitação e outras estruturas, incluindo monumentos, museus, bibliotecas públicas, quarteis de Bombeiros, indústrias e postes elétricos, originando um apagão generalizado de energia elétrica (e telecomunicações), que afetou mais de um milhão de clientes da E-redes;
  • quedas e quebras de árvores de pequeno e grande porte, estimando-se, na Região de Leiria, a queda de (até) 8 milhões de árvores (que são agora um forte problema/combustível para os potenciais incêndios do próximo verão);
  • afetação severa de explorações agrícolas, com milhares de hectares inundados;
  • deslizamentos de terras (ex: Torres Vedras e Porto Brandão), provocando desalojamento e perdas de casas de dezenas de famílias, de forma definitiva; e corte e destruição de inúmeras estradas e interrupção da circulação ferroviária entre Lisboa e Porto e da linha do Oeste.

Os prejuízos sociais resultantes deste “comboio de tempestades” são incomensuráveis, com milhares de famílias e empresas totalmente devastadas. Os prejuízos económicos são igualmente muito avultados – numa estimativa inicial da ordem dos seis mil milhões de euros –, que levaram à criação do programa PTRR - Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência, pelo Governo, com operacionalidade para breve e uma duração até 2034, visando a recuperação e fortalecimento das infraestruturas afetadas.

Um adequado ordenamento do território (inexistência de construções em leitos de cheias, proximidades de arribas ou encostas) poderia ter minimizado algumas destas consequências. Porém, a escala da intempérie foi tal que muitas construções adequadamente localizadas foram profundamente afetadas.
As consequências desta tragédia e a escala dos danos que causou reclamam, assim, a intervenção urgente do meio técnico, nomeadamente das Engenharias, de uma forma organizada. As Ordens profissionais (dos Engenheiros, dos Arquitetos, dos Economistas, etc.) poderão ter aqui uma forte participação, como já acontece na Região Centro, envolvendo as Ordens dos Engenheiros e dos Arquitetos. A Universidade (Professores e Alunos, devidamente enquadrados) também poderá colaborar neste esforço nacional, nos cursos em que tal seja possível.

A Engenharia Civil desempenha obrigatoriamente um papel essencial em todo o processo de reparação e reconstrução das áreas e infraestruturas afetadas, sobretudo, no levantamento e na quantificação exaustiva dos danos, através de profissionais competentes e metodologias adequadas; no restabelecimento das condições de segurança da estruturas afetadas; no desenvolvimento dos projetos de infraestruturas resilientes, capazes de resistirem aos desafios impostos pelas alterações climáticas e na organização e gestão técnica das obras de construção/reconstrução, bem como, em alguns casos, na sua manutenção.

Como profissão de confiança pública, a Engenharia Civil portuguesa, embora se debata com uma enorme falta de recursos humanos, pois escasseiam Engenheiros Civis no mercado e a Universidade não está a formar licenciados e mestres em quantidade adequada às necessidades do País, está preparada para responder a mais este desafio, de uma forma competente, eficiente e segura

 
Fotografia: João Lima/NOVA FCT

Fevereiro 2026