O ordenamento do território é hoje um instrumento estratégico para transformar a mobilidade e melhorar a qualidade de vida nas cidades. Para José Carlos Ferreira, investigador do Departamento de Engenharia do Ambiente e coordenador do Mestrado em Urbanismo e Ordenamento do Território da NOVA FCT, a solução passa por planear espaços urbanos e rurais de forma integrada, ecológica e resiliente. Assim, é possível reduzir a dependência do automóvel, incentivar o uso de transportes coletivos eficientes e valorizar modos suaves de deslocação. Estas medidas são fundamentais para preparar as comunidades para os desafios climáticos e sociais do futuro.
Fotografia: João Lima/NOVA FCT

Qual o papel do ordenamento do território na promoção da mobilidade sustentável?
O modelo de ordenamento do território, tanto em áreas urbanas como rurais, tem hoje a obrigação de promover uma mobilidade mais sustentável. A forma como se organizam os espaços urbanos, as infraestruturas, os serviços e as funções do território determina os padrões de mobilidade das populações. A mobilidade é, assim, peça central na ocupação do território e na qualidade de vida dos seus habitantes.
Um planeamento desarticulado, ou a ausência de planeamento, origina territórios com ocupação dispersa, dependentes do automóvel, o que resulta em congestionamentos, poluição, perda de qualidade de vida e impactos ambientais elevados.
Por outro lado, um ordenamento adequado e integrado pode criar condições para reduzir a mobilidade individual motorizada, oferecendo alternativas eficazes ao transporte particular; aumentar a mobilidade coletiva, através de redes intermodais e descarbonizadas; valorizar a mobilidade suave — a pé, de bicicleta ou por outros modos ativos; apoiar a adaptação às alterações climáticas, através de um desenho urbano e rural mais resiliente.
O que significa um ordenamento do território de base ecológica e como se relaciona com a mobilidade sustentável?
O futuro da mobilidade sustentável passa por um ordenamento do território de base ecológica, que integra Soluções Baseadas na Natureza (SbN) e infraestruturas verdes e azuis. Gonçalo Ribeiro Teles, com a sua visão inovadora, integrou a proteção da natureza com o planeamento urbano, propondo cidades mais verdes, resilientes e adaptadas às alterações climáticas, onde as infraestruturas verdes e azuis têm um papel central.
Na sua perspetiva, a mobilidade sustentável está intrinsecamente ligada ao desenho do território. Ao promover cidades compactas e integradas com os ecossistemas, reduz-se a dependência do automóvel e criam-se condições para a mobilidade pedonal, ciclável e para transportes coletivos eficientes. Esta abordagem mostra como a organização do território pode determinar a forma como as populações se deslocam e interagem com o espaço, incentivando práticas de mobilidade mais sustentáveis.
Qual é a importância dos corredores verdes para a mobilidade ativa?
A mobilidade sustentável não depende apenas dos transportes coletivos, mas também da criação de redes de mobilidade suave, planeadas de forma integrada com o ordenamento do território. João Reis Machado tem desempenhado um papel fundamental na conceção, planeamento e promoção das vias verdes em Portugal, ligando o conceito de corredores verdes à mobilidade sustentável. Os projetos que liderou demonstraram como estas infraestruturas podem ser motores de sustentabilidade ambiental, social e económica, aproximando as pessoas da natureza e incentivando estilos de vida mais saudáveis.
Estes corredores utilizam, muitas vezes, linhas ferroviárias desativadas, estradas secundárias com baixo tráfego e caminhos rurais, criando percursos cicláveis e pedonais, integrados numa rede coerente a nível regional e nacional. Assim, os corredores verdes são muito mais do que vias de transporte: são infraestruturas multifuncionais que contribuem para um turismo sustentável, atividades de lazer e desporto, conservação da biodiversidade,
e desenvolvimento económico local.
Como as infraestruturas verdes e azuis contribuem para cidades resilientes e mobilidade sustentável?
A sustentabilidade efetiva dos espaços urbanos e rurais exige uma estratégia conjunta, capaz de garantir um território equilibrado, saudável e preparado para os desafios futuros. Essa estratégia deve incluir infraestruturas verdes (parques, corredores ecológicos, jardins urbanos, agricultura urbana e espaços de lazer que promovem mobilidade ativa e biodiversidade) e infraestruturas azuis (rios, zonas húmidas, jardins de chuva e sistemas naturais de drenagem urbana). Entre as vantagens, podemos apontar percursos pedonais e ciclovias integrados em espaços verdes, tornando caminhar e pedalar opções seguras e atrativas; a mitigação das ondas de calor, através de árvores, sombras naturais e superfícies permeáveis, aumentando o conforto térmico; a redução do risco de cheias e inundações, graças à infiltração natural da água da chuva e a criação de cidades e vilas mais resilientes às alterações climáticas.
Que papel têm os materiais e o desenho urbano na adaptação climática?
A mobilidade sustentável não se limita à escolha dos meios de transporte. O desenho das vias de comunicação, a conceção dos espaços públicos e os materiais utilizados nas áreas de circulação são fundamentais para a adaptação climática. Materiais permeáveis e ecológicos devem ser prioritários em ciclovias, áreas pedonais, ruas e praças; rodovias, áreas de estacionamento e zonas de circulação urbana.
Entre os benefícios destes materiais podemos apontar: infiltração natural da água, reduzindo os riscos de cheias; a regulação térmica, diminuindo as ilhas de calor no verão e aumentando o conforto térmico; uma menor necessidade de sistemas artificiais de drenagem e climatização. Os materiais utilizados no espaço público têm impacto direto na resiliência climática e na qualidade de vida urbana.
Qual a importância das cidades de proximidade para a mobilidade sustentável?
Jane Jacobs, na sua obra "The Death and Life of Great American Cities" (1961), defendeu que as cidades devem ser planeadas à escala humana, com ruas vivas, seguras e diversificadas, onde a mistura de usos (habitação, comércio, serviços e cultura) promove comunidades ativas e resilientes.
Hoje, as escolas de planeamento e gestão do território defendem espaços urbanos compactos e caminháveis, apoiados por transporte coletivo eficiente e acessível, em oposição a um modelo urbano dependente do automóvel e de grandes projetos rodoviários, que muitas vezes criam “não lugares”. Este pensamento antecipou conceitos atuais como a cidade dos 15 minutos e as superilles (super quarteirões) de Barcelona, que reduzem o tráfego automóvel, devolvem o espaço público às pessoas e favorecem a mobilidade ativa e a coesão social.
O modelo da cidade dos 15 minutos propõe que cada pessoa possa aceder a serviços essenciais — habitação, trabalho, saúde, educação, lazer e comércio — num raio de 15 minutos a pé ou de bicicleta. Entre os principais benefícios, destacam-se a redução danecessidade de deslocações longas e motorizadas; um aumento da qualidade de vida, libertando tempo e espaço para a comunidade e até o incentivo à economia de proximidade e a coesão social.
Como o transporte coletivo pode ser estruturante numa mobilidade sustentável?
Mesmo em territórios compactos e bem planeados, haverá sempre deslocações que exigem transporte motorizado. Por isso, é essencial investir em redes de mobilidade coletiva, que sejam descarbonizadas, com frotas elétricas ou de baixas emissões; intermodais, integrando autocarros, comboios, metros, bicicletas e sistemas de mobilidade partilhada; eficientes e acessíveis, oferecendo alternativas reais ao automóvel. Desta forma, o transporte coletivo torna-se a espinha dorsal de uma mobilidade justa, equitativa e sustentável.
Como vê o futuro da mobilidade e do ordenamento do território?
O ordenamento do território não é apenas um exercício técnico: é um instrumento estratégico para transformar a mobilidade e a vida nas cidades.
Ao integrar infraestruturas verdes e azuis, mobilidade ativa e coletiva e adaptação climática, é possível criar cidades e comunidades mais resilientes, preparadas para os desafios ambientais, sociais e económicos do presente e do futuro.
Setembro 2025