Inspirada pela paixão pela arte têxtil e pela curiosidade pelos materiais históricos, a investigadora Paula Nabais, da NOVA FCT, lidera o projeto europeu SCARLET, financiado com €1,5 milhões, que recupera práticas ancestrais de tingimento para reinventar uma das indústrias mais poluentes do mundo e abrir caminho a soluções mais sustentáveis.

Fotografia: João Lima/NOVA FCT
A indústria têxtil é, actualmente, uma das mais poluentes do mundo. Responsável por elevados níveis de consumo de água, utilização intensiva de químicos e produção massiva de resíduos, o setor enfrenta atualmente um enorme desafio: reinventar-se de forma a tornar-se mais sustentável e alinhado com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da União Europeia.
Neste cenário, o recuperar de práticas ancestrais e a valorização do conhecimento histórico têm vindo a revelar-se caminhos inovadores para responder às necessidades do presente. É precisamente neste cruzamento entre ciência, história e arte que surge o projeto SCARLET - Study and Interpretation of Historical Natural Dye Formulations for the Modern Textile Design, liderado por Paula Nabais, professora e investigadora do Departamento de Conservação e Restauro (DCR) da NOVA FCT e membro do Laboratório Associado para a Química Verde (LAQV). A investigadora conquistou uma prestigiada Bolsa ERC Starting2, no valor de €1,499,697, para desenvolver durante cinco anos um trabalho que alia o estudo de técnicas de tingimento têxtil dos séculos XV a XVIII à procura de soluções sustentáveis para o futuro da indústria têxtil.
O projeto SCARLET, financiado por fundos europeus, tem uma forte componente internacional, com enfoque no estudo de receitas históricas de tinturaria oriundas de diferentes países europeus. Nestes registos, destaca-se sobretudo o uso de corantes de origem vegetal, como a ruiva (garança), o pastel e o índigo, mas também de origem animal, como a cochinilha.
No contexto nacional, a investigação centra-se nas três tipologias de lã existentes em território português (o Merino, a Churra, e a Bordaleira) — uma matéria-prima frequentemente desvalorizada. Como refere Paula Nabais, “na produção têxtil histórica, a lã era dos materiais mais emblemáticos, estando intimamente ligada à nossa identidade cultural. Além disso, a lã é uma fibra natural, com enorme potencial a nível de sustentabilidade - refere Paula Nabais.
As motivações da investigadora para este estudo assentam na sua paixão pela arte têxtil e na curiosidade pelos materiais históricos, entendidos como testemunhos de memória cultural. Nas suas palavras, “os têxteis, em particular, são uma área pouco estudada, mas de enorme relevância: acompanham a vida quotidiana, refletem identidades e foram, durante séculos, motores de inovação tecnológica. Ao estudar o têxtil, consigo unir ciência, história e arte, e onde a recuperação de saberes antigos pode inspirar soluções sustentáveis para o futuro”.
Entre os principais objetivos do projeto, destaca-se a compreensão da estabilidade da cor e a avaliação da sustentabilidade das receitas históricas de corantes naturais. O SCARLET propõe ainda novas perspetivas para a comunidade têxtil, promovendo a colaboração com designers, artistas e com a própria indústria, através de uma plataforma de acesso aberto. É precisamente nesta ligação ao setor que Paula Nabais procura potenciar os resultados científicos e garantir a sua aplicação prática.
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Setembro 2025